O fim da escala 6x1 terá custo para os empregadores de Oeiras, principalmente para o varejo de rua, onde predominam estabelecimentos com até quatro funcionários. Mas a mesma mudança que pesará na folha de um setor tende a abrir mercado para outros. Vale a velha máxima do comércio: enquanto uns choram, outros vendem lenços.

Os números são do Ministério do Trabalho e Emprego, extraídos da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) 2025, a mesma base usada pelo O Oeirense para medir o impacto sobre os empregadores.

11,7 MIL HORAS LIVRES POR SEMANA

Em Oeiras, 2.933 empregados do setor privado têm contrato acima de 40 horas semanais e serão alcançados pela redução da jornada. Cada um ganhará quatro horas livres por semana. Somadas, serão cerca de 11,7 mil horas semanais na cidade, ou aproximadamente 610 mil horas ao longo de um ano.

Como a PEC proíbe a redução de salário, a renda desses trabalhadores seguirá na economia local, agora com mais tempo para ser gasta. Com dois dias de descanso, um deles preferencialmente no domingo, muitos passarão a ter o fim de semana inteiro livre pela primeira vez. É esse tempo que os negócios da cidade tendem a disputar.

SETORES COM ESPAÇO PARA CRESCER

Alimentação fora de casa e hospedagem estão entre os primeiros candidatos, principalmente aos sábados e domingos. Segundo o Ministério do Trabalho, Oeiras tem 24 restaurantes, bares e lanchonetes com carteira assinada, que empregam 73 pessoas, além de 9 hotéis e pousadas, com 40 funcionários. Dois dias seguidos de folga também tornam viáveis passeios de curta distância e o turismo histórico da própria cidade.

Na educação privada e em cursos livres são 12 estabelecimentos e 137 empregados. O setor tem um público potencial expressivo: 83% dos trabalhadores alcançados pela PEC estudaram até o ensino médio, perfil que costuma buscar qualificação profissional, cursos técnicos ou faculdade quando há horário disponível.

Academias e atividades esportivas somam 10 estabelecimentos e 79 trabalhadores. Clínicas, consultórios e laboratórios privados são 36, com 112 empregados, e passarão a atender quem antes precisava faltar ao trabalho para uma consulta. Já o comércio de material de construção, procurado por quem usa a folga para reformar a casa, reúne 31 lojas e 211 funcionários.

Os números retratam apenas negócios com empregados registrados. Salões de beleza, barbearias e boa parte dos serviços de lazer funcionam como microempreendedores individuais ou na informalidade e não aparecem nos dados do Ministério. Ainda assim, o tamanho reduzido desses setores no emprego formal indica margem para expansão caso a demanda cresça.

QUEM VENDE LENÇOS TAMBÉM SE ADAPTA

Os setores que podem ganhar com o tempo livre não estão fora da nova regra. Seus próprios funcionários também terão a jornada reduzida, sem corte de salário. E há um detalhe que pesa justamente sobre eles: a demanda tende a crescer nos fins de semana e feriados, que são os dias em que o trabalhador do comércio passará a folgar.

Restaurantes, hotéis, academias e clínicas que quiserem aproveitar o novo movimento terão de reorganizar escalas, contratar mais gente ou pagar horas extras nos períodos de maior procura. O ganho com a demanda nova, portanto, vem acompanhado de custo, e o resultado para cada negócio dependerá de quanto ele vender a mais diante do que gastar a mais com pessoal.

O QUE DIZEM OS ECONOMISTAS

O economista Alexandre Pires, professor do Ibmec São Paulo, avaliou à Forbes Brasil que o aumento do tempo livre pode impulsionar lazer, educação, entretenimento e o consumo em geral. Ele também vê espaço para ganhos em empresas com capacidade de investimento, já que choques de custo costumam estimular inovação e eficiência.

Felipe Pateo, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), sustenta que o tempo livre pode até aquecer a economia e considera limitado o impacto sobre o custo total das empresas na maioria dos setores.

Os mesmos especialistas apontam as condições. Pires lembra que o desafio para os empresários será repassar custos aos preços sem perder vendas. Se o repasse for amplo, parte do poder de compra se perderá. E se os negócios de lazer e serviços não abrirem nos horários de folga, o consumo poderá migrar para cidades vizinhas ou para compras pela internet.

UMA JANELA DE 14 MESES

A redução será gradual. Sessenta dias após a promulgação, a jornada máxima cairá para 42 horas. Um ano depois, chegará a 40. É o prazo que os negócios locais terão para se adaptar e se posicionar diante do novo calendário do trabalhador oeirense.

Imagem ilustrativa.