Esta análise cruza os resultados das sete eleições para deputado estadual em Oeiras desde 1998, o registro de candidaturas de 2026 e o resultado da eleição municipal de 2024, todos em dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral. O que eles mostram é o esgotamento de um modelo de voto concentrado que organizou a política oeirense por 28 anos.
Durante quase três décadas, a cidade funcionou com um ponto de convergência. Mauro Tapety foi o mais votado em 1998, 2002, 2006 e 2010. Bessah foi o mais votado em 2014, 2018 e 2022. Nenhum terceiro nome chegou ao primeiro lugar nesse período, e quem liderava levava entre 33% e 53% de todo o voto que a cidade produzia para deputado estadual.
Em 2026 esse ponto de convergência não está dado. O que os dados indicam é que o voto da cidade deve se repartir entre mais nomes do que em qualquer eleição desde 1998.
A DIVISÃO EM NÚMEROS
A pulverização vem se acentuando há quatro eleições e pode ser medida com precisão.
O indicador mais direto é o número efetivo de candidatos, que traduz quantos concorrentes de fato disputam o eleitorado. Em 1998, Oeiras funcionava como se tivesse 2,9 candidatos em disputa. Passou a 3,6 em 2002, 4,1 em 2006 e 5,4 em 2010. Bessah reverteu a curva em 2014, quando o índice caiu para 3,8, mas ela voltou logo depois: 5,0 em 2018 e 6,0 em 2022, o valor mais alto de toda a série.
O número de candidatos que ultrapassaram cem votos na cidade acompanha o movimento. Eram 5 em 1998. Foram 8, 9, 11, 11, 15, e chegaram a 21 candidatos em 2022. A cada eleição, o voto oeirense se reparte em mais pedaços.
E o topo encolheu junto. Em 1998, o primeiro colocado levou 53,5% de todo o voto nominal da cidade. Em 2010, 35,5%. Em 2022, 33,8%. O primeiro lugar em Oeiras já foi mais da metade dos votos e hoje é um terço.
O TETO QUE NUNCA SE MOVEU
Por trás dessa queda há um dado que explica o fenômeno melhor do que qualquer avaliação política.
Em sete eleições, o primeiro colocado em Oeiras nunca teve menos de 6.441 votos nem mais de 7.809. Toda a oscilação de quase três décadas cabe em 1.368 votos.
O tamanho da disputa, porém, aumentou muito. O eleitorado apto do município passou de 24.371 em 1998 para 29.695 em 2022, alta de 21,8%. E a participação melhorou: a abstenção caiu de 28,4% para 18,9%, e os votos brancos e nulos, que somavam 2.864 em 1998, ficaram em 1.471 em 2022. O efeito combinado é que o total de votos nominais em disputa saltou de 14.294 para 20.965, crescimento de 46,7%.
Havia, portanto, muito mais voto em jogo na última eleição do que na primeira da série. Mesmo assim, a votação do primeiro colocado foi 7,4% menor. Existe um teto em torno de sete mil votos que ninguém rompeu em 28 anos, encostado tanto por Mauro Tapety em 1998 quanto por Bessah em 2014. Como o total disputado cresce e o teto não, a fatia do primeiro colocado diminui sozinha, eleição após eleição. A pulverização é, em boa medida, aritmética.

O PESO DE OEIRAS NA CONTA DE CADA CANDIDATO
Um segundo indicador ajuda a dimensionar o que está em jogo: quanto da votação total do candidato em todo o Piauí saiu de Oeiras. Ele mede peso eleitoral, e não origem ou vínculo pessoal com o município. O que revela é o tamanho do risco que perder esta cidade representa para cada campanha.
Nas sete eleições da série, houve sempre ao menos um candidato para quem esse risco era alto. Mauro Tapety tirou de Oeiras 37,2% de tudo o que recebeu no estado em 1998, 36,5% em 2002, 27,7% em 2006 e 29,5% em 2010. Bessah tirou 43,4% em 2014, 31,9% em 2018 e 25,6% em 2022. Vanessa Tapety tirou 30,9% em 2022.
Em 2022, entre os demais candidatos votados na cidade, os índices eram menores: Limma tirou daqui 4,4% da própria votação estadual, Hélio Isaías 4,4%, Dr. Hélio 1,7% e Georgiano 0,6%. São campanhas com votação relevante em Oeiras e base distribuída por muitos municípios.
Quanto mais o voto da cidade se reparte, mais campanhas se aproximam do segundo perfil.
O CAMPO DE 2026
Segundo o registro de candidaturas do TSE, em base gerada em 11 de agosto, disputam o voto de Oeiras candidatos com trajetórias bastante diferentes na cidade.
Mauro Tapety concorre em 2026 pelo MDB, sucedendo Vanessa Tapety que disputou em 2022 e teve 3.632 votos.
Entre os que tiveram votação expressiva em 2022 e voltaram a se registrar estão Limma, do PT, com 2.064 votos em Oeiras naquele ano, Hélio Isaías, do PT, com 1.711, e Dr. Hélio, do MDB, com 646. Os 656 votos que Georgiano, do MDB, obteve em Oeiras em 2022 não entram nessa comparação: ele não consta no registro de 2026. Themístocles Filho, do MDB, é um caso à parte, porque em 2022 não disputou o cargo de deputado estadual, e sim o de vice-governador, de modo que não há votação dele para deputado em Oeiras naquele ano.
Outros chegam com votação oeirense mínima na eleição passada. Severo Eulálio, registrado pelo MDB com o mesmo número de 2022, teve 45 votos na cidade. João Madison, também do MDB, teve 39. Firmino Paulo, do PT, teve 11. Evaldo Gomes, do PT, teve 5.
Um dado ainda pode alterar esse quadro e precisa ser lido com cautela. Bessah, o mais votado da cidade nas três últimas eleições, não constava no registro do TSE até a base de 11 de agosto, nem para deputado estadual nem para federal. O prazo legal de registro se encerra em 15 de agosto e a lista ainda estava incompleta: o Piauí contava 100 candidatos a deputado estadual registrados, contra 191 que receberam votos em 2022.
O BLOCO QUE CHEGA INTEIRO
É aqui que 2026 se distingue de tudo o que veio antes. Enquanto o voto estadual se reparte, existe em Oeiras um contingente que nunca coube nos sete mil votos do primeiro colocado e que chega a esta eleição organizado.
A disputa municipal de 2024 mobilizou 26.480 votos apurados na cidade. O prefeito eleito, Hailton Alves Filho, teve 13.540. José Alberto Pinheiro de Araújo teve 12.209. São 25.749 votos nominais, movidos por uma estrutura que trabalha povoado por povoado, rua por rua. O maior desempenho de um nome estadual em Oeiras em 28 anos foram os 7.809 votos de Bessah em 2014. A eleição municipal move mais de três vezes esse volume.
Em quase três décadas, essa maioria municipal nunca se traduziu em voto estadual concentrado. Sempre se repartiu entre muitos nomes. A diferença é que agora ela se reparte num quadro em que também o topo está aberto.
UM CICLO NOVO
A eleição de outubro deve inaugurar em Oeiras um período de representação distribuída, com mais nomes dividindo o voto da cidade e cada um levando uma fatia menor do que a que sustentou as hegemonias anteriores.
Isso tem duas faces. De um lado, mais interlocutores: uma cidade que dialoga com vários deputados em vez de depender de um. De outro, menos peso individual: quanto menor a fatia que Oeiras representa na conta de cada campanha, menor a urgência de atender à cidade entre uma eleição e outra. Foi essa urgência que sustentou o modelo anterior por 28 anos.
A pergunta que outubro responde não é quem vence em Oeiras. É se algum nome ainda consegue reunir o voto da cidade em torno de si, rompendo um teto que não se move desde 1998, ou se a descentralização que os números vêm anunciando há quatro eleições finalmente se consolida.
NOTA SOBRE OS DADOS
Os dados desta análise são de acesso público e foram apurados nos arquivos de votação por seção do Tribunal Superior Eleitoral referentes a 1998, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e 2024, e no arquivo de registro de candidaturas de 2026, em base gerada em 11 de agosto de 2026. Todos os totais foram conferidos contra o boletim consolidado de votação por município publicado pelo próprio TSE, e as somas de votos nominais, de legenda, brancos e nulos fecham com o comparecimento oficial em cada uma das sete eleições.
O eleitorado do município não cresce de forma contínua na série, em razão das revisões de cadastro eleitoral do período: 24.371 aptos em 1998, 22.753 em 2002, 23.117 em 2006, 26.360 em 2010, 24.425 em 2014, 27.638 em 2018 e 29.695 em 2022. As comparações de longo prazo feitas nesta análise usam os dois extremos da série e o percentual do voto nominal, que não é afetado por essas oscilações.
A série começa em 1998 por uma razão de método. Oeiras deu origem a municípios vizinhos ao longo de sua história, e a última grande onda de emancipações no Piauí ocorreu na segunda metade dos anos 1990: o estado passou de 183 municípios com voto apurado em 1994 para 222 em 1998. Comparar a votação de Oeiras antes e depois desse período seria comparar territórios diferentes. De 1998 em diante o mapa se estabilizou, com 223 municípios em 2002 e 224 em 2022, o que torna a série homogênea.
Voto nominal exclui votos de legenda, brancos e nulos. O percentual de dependência indica quanto da votação total do candidato em todo o Piauí foi obtido em Oeiras, e mede peso eleitoral, não origem ou vínculo pessoal com o município. O número efetivo de candidatos é um índice de dispersão do voto e equivale ao número de candidatos que produziriam a mesma concentração se todos tivessem votação igual.



